quarta-feira, 22 de junho de 2016

Caminhadas e afazeres

   À luz está apagada mas mesmo assim enxergo todo o meu quarto, que anda sujo e mal aproveitado. Tem cadernos, livros e folhas no chão, dois copos semi vazios ao lado da janela, uma toalha pendurada na vidraça e roupas espalhadas ao redor da cama.
  Não durmo muito bem a alguns dias, sinto que meu corpo não vai aguentar, cedendo a complicações e resfriados.
  Com dores de cabeça me levanto e vou me esgueirando até porta, tateando as coisas que tropeço. Quero água e noto que esqueci o copo, volto e então me aproximo da cama me apoiando nela, abaixo a coluna dolorida de jovem, pego o copo e volto a me direcionar para a cozinha.
   Caminhando descalço pelo apartamento sinto o chão gelado, os pelos em arrepios e as enchaquecas fora de hora. Tudo que me contorna de forma unica as paredes brancas, as dobradiças da porta do banheiro tudo me acerta.  
   Chego na cozinha despejo o pouco de água que havia no copo e o encho novamente, a torneira está molhada e as dores de garganta me cercam de novo. Assim, enquanto bebo da água, percebo que amanhã terei de me reconstruir.
   Parado na cozinha, apoio meu corpo sobre a pia e me disperso, fico pendurado entre o estar e o não estar. Em outro mundo, começo a ouvir de tudo, como se tivesse assistindo sem ver... Os cachorros latem uns para os outros na rua, na esquina o motociclista buzina para alertar que está passando pelo sinal vermelho e o taxista no acostamento bate à porta do carro. Eu os escuto densamente, enquanto bebo do copo d'água.
  Com o copo na mão, caminho de novo para o quarto, com as mesmas enchaquecas e pelos arrepiados, observo a luz do corredor que está quente e acesa, chego na entrada do quarto e percebo olhando a porta semi aberta, que onde me deitava na cama, não caibo mais. 
  De bruços suas pernas se encontram sobrepostas umas as outras, um dos braços à beirada do colchão, envolto pelo lençol que cobre a parte inferior da costas. Estava à tomar o meu lugar e eu nada ouso fazer. 
   Deixo a porta aberta para enxergar melhor o quarto e caminho até o lado direito da cama. Me sento no chão em cima de uma blusa de frio, dobrando as pernas e me recostando na parede. 
   Então, me perco de novo, me penduro entre o ser e o não ser. Me desligo e não ouço nada que não fosse daquele quarto. Ouço o vento passando pela janela, o som do computador carregando, o barulho da cama, enquanto ela se mexe. 
   Nada me escapa.
   Dela, nada escapou... Peguei de tudo, a respiração, o som dos braços ao se roçarem... Consegui até ouvir seu coração, enquanto ela caminha para onde eu não consigo alcançar. 

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